Os comentários sobre a crise financeira na mídia permanecem em grande parte herméticos para o público leigo, com seu jargão incompreensível para a maioria. Ainda que supostamente pretendam ajudar a esclarecer para os leitores/espectadores esse acontecimento que afeta a vida de todos os habitantes do planeta, há um ponto que, apesar de muito simples e conhecido desde o início, não tem sido suficientemente discutido. Ora, desde que os governantes dos países mais ricos reconheceram a existência de uma crise no sistema financeiro, chamou a atenção dos leigos em economia que os maiores bancos do planeta lidassem com gigantescas montanhas de dinheiro que na realidade nunca existiram materialmente. Ou melhor, que só existiam virtualmente. Foram esses Everests de dólares que desapareceram da noite para o dia, apagados como um arquivo inútil do computador. É como se, por uma mudança de “ponto de vista”, balanços até então positivos passassem subitamente para o vermelho.
Naturalmente, o homem comum, que paga suas contas com o saldo da sua conta corrente, está a anos-luz dessa história. Ou não? Os cronistas da crise nos informam que esta começou com a classe média norte-americana consumindo freneticamente sem uma receita real, contando somente com a valorização da hipoteca da casa própria. Talvez, afinal de contas, não seja tão difícil para esse público aceitar que executivos de bancos super-poderosos especulem com somas que só existem nas suas expectativas otimistas. Isso nos mostra como todos compartilham da mesma crença: a de que o mercado não somente é capaz de regular tudo, mas é também capaz de gerar dinheiro simplesmente a partir da vontade, sem que tenha que existir uma produção real. A fascinação pelo virtual não é responsável apenas pela moda de teses bobocas na academia, ela também está por trás do desinteresse pelo trabalho humano que produz as mercadorias que consumimos. Daí porque a nossa era permite a convivência da mais alta tecnologia com o trabalho escravo.
Infelizmente o fracasso inquestionável dessa crença num lucro infinito sem trabalho prejudica não somente os especuladores, mas todo o mundo. A crise do dinheiro virtual produz efeitos nocivos na chamada economia real: desemprego, falta de crédito, recessão. O filósofo Slavoj Zizek, em conferência recente, propunha um tratamento bem-humorado para a crise: já que todo o problema seria causado por uma mudança de humor, em vez de tentar resolvê-lo intervindo na economia real, melhor seria atuar sobre as expectativas dos investidores. Caso fosse governante dos EUA, dizia esse autor, minimizaria o problema desde o início, negando a crise e gerando mais otimismo, o que acabaria surtindo o efeito de fazer a crise desaparecer realmente. Parece que o nosso presidente levou a sério o conselho de Zizek, mas sem o resultado esperado. O remédio mais aplicado pelo mundo afora tem sido outro: trilhões de dólares nada virtuais despejados preferencialmente nas instituições financeiras que torraram seu capital fictício. Que seja o velho Estado, que se acreditava obsoleto, aquele que fornece tal medicamento, é só mais uma ironia do destino, comodamente deixada de lado pelos economistas, digamos, conservadores, e seus admiradores. Que lições podemos extrair desses acontecimentos? Uma delas, certamente não a menor, é que o pensamento que norteia o sistema econômico, e que pretende que o mercado seja capaz de regular a economia de todos os países de forma não somente eficiente, mas puramente lógica, mostra seu outro lado. Trata-se de um lado irracional, paradoxalmente vindo de onde se dizia ser a sede da racionalidade pura. Como dizia o psicanalista Ricardo Estacolchic, se o mercado fosse um sujeito, ele acumularia os mais variados diagnósticos, da neurose à psicose, às vezes no mesmo dia. Em vez de confiarmos cegamente nas ideologias da moda, que pregam certezas “infalíveis”, melhor seria refletirmos sobre o que motiva nossa fascinação pelo virtual, pelo intangível. Essa poderia ser uma via para entender o objeto que causa o nosso desejo. |