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DO SABER E DA DOMINAÇÃO
Ao falar sobre os discursos, Lacan destaca em um deles o saber no lugar dominante. Ele o chama então de “Discurso Universitário”, não para limitá-lo à academia, mas para tomar emprestado o nome da universidade como a casa de todos os saberes, o lugar onde o saber, por definição, domina. O que não quer dizer que o discurso da dominação do saber não se manifeste em outras plagas. Que ele está disseminado em nossos dias é algo facilmente constatável: “nunca antes na história” se recorreu tanto à palavra dos especialistas. Os psicanalistas sabemos o quanto é difícil recusar uma posição de saber quando somos cotidianamente interpelados para falar a partir de tal posição. E o quanto é mais fácil para um profissional “psi” responder fazendo apelo ao saber: “Seu filho tem TOC, tem TDAH, etc...”

     Talvez uma consequência necessária do Discurso Universitário seja que todos os saberes acabam se equivalendo. A academia, por ser a casa de todos os saberes, é justamente o lugar onde se pode dizer tudo e o seu oposto. Se o saber não dá conta da verdade, por que não pensar então como alguns teóricos, que a verdade se faz ao gosto de cada saber? Porém Lacan, que seria hoje em dia politicamente incorreto, insistia em falar da verdade como um lugar, no caso do D.U., ocupado pelo mestre. Só que, nesse caso, rebaixado a não ser mais do que o nome de um autor, uma referência para as citações: Freud, Marx, etc (até Lacan, por que não?).

     De forma mais radical, a internet propõe um saber que domina sozinho, sem nenhum mestre. O que as ferramentas de busca (Google hoje, amanhã sabe-se lá o quê) propõem é exatamente o modelo da cadeia significante solta, sem o domínio do S1. A fascinação que essa ideia provoca chama a atenção de alguns psicanalistas, que especulam acerca de seus desdobramentos políticos. Sem dúvida, toda autoridade é um pouco mal vista hoje em dia, além de ser de bom tom acolher todas as opiniões em lugar de expressar qualquer julgamento (o que conduz facilmente a absurdos, como atrasar as providências acerca do aquecimento global para dar voz aos “céticos”). Porém, um efeito colateral desse relativismo poderia ser também uma nostalgia do mestre.

     Da mesma forma que a histérica desfaz do mestre porque aguarda um mestre absoluto, vez por outra surgem apelos a esse tipo de mestre, que poria fim ao relativismo dos saberes. Em geral tais apelos são feitos como resposta a questões que mobilizam a todos na atualidade. Os adolescentes hoje em dia são cada vez mais avessos às regras? Devemos voltar aos tempos dos pais autoritários, que não admitiam discussão para o seu “não”. O sexo está cada vez mais banalizado? Vamos pregar a castidade antes do casamento e o sexo apenas no sagrado matrimônio. A lei civil admite formas de união antes inadmissíveis? Mobilizemo-nos para restringir a definição de casamento a casais heterossexuais. A ciência não se coloca nenhum limite e deixa as questões éticas para serem discutidas depois da aplicação de suas descobertas? Coloquemos limites para a pesquisa científica em nome da religião. A democracia é complicada e exige um esforço para compor interesses conflitantes? Uma boa ditadura resolveria todos os problemas.
     Observem que esse tipo de resposta às mais diversas questões (que exigem de fato a nossa atenção, ainda que não nesse sentido) é sempre o mesmo: o apelo a um mestre terrível, que não admitiria contestação, que poria fim à deriva interminável dos saberes em nome do dogma. Se esse retorno a um passado, suposto tranqüilo e pacífico, parece ingênuo e ridículo, ele nem por isso deixa de ser perigoso, já que não faltam aqueles que se deixam captar pela promessa de tranqüilidade que resulta da delegação das decisões sobre a sua vida a um Outro (lembrando mais uma vez a célebre previsão de Lacan sobre o triunfo da religião). A nossa aposta, porém, é no enfrentamento das questões e não no recurso à solução fácil do apelo a um Outro encarnado. A boa notícia é que em circunstâncias muito mais difíceis que as nossas, as populações do Oriente Médio não hesitaram em enfrentar seus mestres encarnados em tiranos ridículos, mostrando para quem ainda não quer ver que o passado ficou para trás. 

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Segunda-feira, 6 de Fevereiro de 2012